segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011


A cultura de um caipira... homem com linguagem regional, misturando vários bordões e incrementos livres e novas grafias implementando e usando novos atributos para uma nova realidade...
O registro do homem rural, em forma de recortes na literatura, é feito aqui para demonstrar a sua originalidade. Pensando esse elemento como peculiar que ele é, destaca-se a singularidade da literatura brasileira num quadro maior, observando-se a sua amplidão temática, ou seja, a sua universalidade em conteúdo.
De um ponto de vista sócio-econômico e cultural, salienta-se o modo de vida do caipira com base na produção de subsistência e nas relações de compadrio (mutirões, parcerias), com suas manifestações culturais ligadas a modas de viola, danças, causos, adivinhas; em singularidades na culinária, na vida religiosa, crendices, entre outros.
Essa figura está viva ainda em muitas partes do Brasil rural. Contudo, encontra-se de forma acessível e eterna na literatura. O homem rural vem se fazendo muito marcante no quadro literário típico do Brasil, até por causa de seu linguajar próprio, seu modo de vida, suas características.
O personagem é envolvente, está no cotidiano do homem que mora no interior, na roça, no sertão e no cenário cultural que ele transmite. Traz um pensar que destrincha os problemas sociais aos olhos de quem está do lado, seja no ambiente físico, seja na leitura.
Quando acompanhamos, por exemplo, a travessia que Guimarães Rosa traça no Grande Sertão: Veredas, o Liso do Sussuarão que “concebia silêncio” (ROSA, 2001: 67), sentimos as angústias vividas, por dentro e por fora, de quem atravessa aquele deserto.
Aqui, temos o sertanejo como outra variante do homem rural. E reconhecemos que caipira e sertanejo são tipos que possuem tanto semelhanças quanto diferenças. O sertanejo é tido como um homem forte (VICENTINI, 1997), em que o meio, primeiramente, já o difere daquele. O sertão molda o homem rural para uma luta constante, diária, e este precisa se fazer forte para resistir às dificuldades que a seca, por exemplo, oferece. O caipira é caricaturizado como preguiçoso por essa diferença notável entre ele e o sertanejo. Notamos em recortes na literatura que o caipira é “apanhado nas brenhas e grotas, à beira dos rios, preguiçoso e ignorante, na figura-síntese do Jeca-Tatu”, de Monteiro Lobato (em VICENTINI, 1997: 37). Em contrapartida, na narração, que também pode-se dizer síntese, o “sertanejo de Euclides da Cunha fora um forte, bem apanhado por ele no interior do sertão baiano, como ‘rocha viva da nacionalidade’” (idem, ibidem: 37). Porém, ambos carregam a etiqueta de atraso em relação à industrialização das cidades, o que recai sobre o modo de vida, claro. E aqui este aspecto é abordado tanto quanto possível positivamente. Pois são esses valores ruralistas que são caros à singularidade da literatura brasileira, nessa perspectiva.
As características do homem rural ora divergem entre um tipo e outro, ora se mesclam. Em Grande Sertão: Veredas (ROSA, 2001), Riobaldo lembra, no que matuta, o pensar do caipira. Esse personagem conta sua história a um viajante, e levanta, a todo momento na narrativa, questões sobre o homem, o mundo e a vida. Entre suas vastas experiências, também fala de sentimentos, como: “Por esses longes todos eu passei, com pessoa minha no meu lado, a gente se querendo bem. O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade? Diz-se que tem saudade de idéia e saudade de coração” (ROSA, 2001: 43). Este personagem parece que suspira, volta e meia, suas reminiscências sobre a vida: “Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso...” (ROSA, 2001: 41).
Quando se observa o personagem ruralista, nota-se que ele carrega um baú de guardados preciosos, como se estivesse ali a sua alma e a de muitos, porque, à medida que o homem rural escuta e vivencia os casos, ele reconta e observa lições, manhas, trejeitos. Nesse repassar de vivências, há o registro de apreensões que, moldadas às do próprio sujeito, vão acrescentando conhecimentos a quem ouve, a quem lê, colocando-nos diante da complexidade e da contradição humanas.
Poetas e escritores registram esse homem rural na forma de personagens que não deixam a cultura morrer. É o que Cora Coralina diz: “Alguém deve rever, escrever e assinar os autos do Passado antes que o Tempo passe tudo a limpo” (CORALINA, s/d: 09). Ainda mais quando diz tanto sobre tradições e histórias. É um resgate.
No poema “Caminhos dos Morros”, Cora Coralina revela modos típicos do homem rural caipira na figura de Pretovelho:
“[...] Pretovelho calado,
mascando seu fumo.
Pretovelho fechado,
cuspindo de banda.
Pretovelho enleado
na sua ronha [...]”.
(CORALINA, s/d: 80)
Essa breve descrição poética do caipira já nos remete a outra de suas características marcantes: o silêncio de matuto, um silêncio entrecortado de opiniões caras. Como o personagem Pretovelho que dizia: “Deus dá para o tamanho da percisão” (CORALINA, s/d: 80). Nesse recorte, percebe-se a não necessidade de acumular capital, algo que está ligado à religião, enraizado na cultura.
No que se refere à descrição do homem rural e também às crendices tão impregnadas em seus costumes, pode-se também observar pai Zé, personagem de Hugo de Carvalho Ramos, no conto “O Saci”: “Arrastando as alpercatas de couro cru pelas terras de sô Feitor, pai Zé capengava satisfeito e inchado com a promessa do Saci” (em DENÓFRIO & SILVA, 1993: 53).
Euclides da Cunha (2000), em Os Sertões, trabalhou a imagem do sertanejo em que se pode sublinhar mais uma vez o caráter de força e luta presentes nesse constituinte ruralista: “É homem permanentemente fatigado. Reflete a preguiça invencível, a atonia muscular perene, em tudo: na palavra remorada, no gesto contrafeito, no andar desaprumado, na cadência langorosa das modinhas, na tendência constante à imobilidade e à quietude” (CUNHA, 2000: 113). Mas lembra bem este escritor que acreditar piamente na constância dessa quietude não é válido, porque não é uma reação passiva. Quando surge um acidente, o sertanejo se revela: “do tabaréu canhestro reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de um titã acobreado e potente, num desdobramento surpreendente de força e agilidade extraordinárias” (idem, ibidem: 113). Aí a presteza e a disposição do sertanejo remontadas pelo meio.
No que tange ao personagem do homem rural, nota-se que o humano, com toda sua complexidade e sua contradição, está ricamente presente nos causos, nas cantigas, nas histórias e nos achares de quem viveu ou ouviu e reconta essas trajetórias.
O escritor goiano Bernardo Élis traçou um personagem chamado Chico da Gama, no conto “Noite de São Lourenço”, que descreve o homem rural caipira: “Não, até que o cantador não é muito velho não, é homem assim de meia idade, mas seu conservado, pele alva, usa uma barbona ruça que quase mistura com as toeiras da viola, é homem muito sossegado e muito acomodado” (ÉLIS, 1987: 58). Esse é o homem que traz histórias na capanga e tira da sua viola canções que muitos desejam ouvir, “De tal forma que até vem gente velha de muito longe só para ouvir uma toada dessas que já ninguém conhece, nem canta mais, de fora de moda, mas que o Chico da Gama ainda conserva na sua recordação” (ÉLIS, 1987: 58).
Novamente fazendo aproximações dentro do que engloba o homem rural, à guisa de exemplificação, pode-se notar o personagem de Melo Neto (1976), destacando o seu trabalho sertanejo na construção da vida, na luta pela sobrevivência, na esperança de terra melhor trabalhando-a com as próprias mãos, e por vezes tentar outra vez vencer as dificuldades que o sertão oferece. Severino, personagem de João Cabral de Melo Neto, sentencia:
“Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza”.
       (NETO, 1976: 74-75).
O homem rural é uma mescla de ensinamentos. Ao mesmo tempo que é herança herdada, é herança prometida, ou seja, ele é o sujeito que abriga a cultura que o Brasil veio construindo desde a mestiçagem do negro-índio-europeu até a massa progenitora e formadora de novos povos e, portanto, um precioso achado e guardado culturais, que contribuirão, por conseguinte, para futuras gerações.
A figura do homem rural está se desfazendo aos poucos no contexto social, pelos fios das gerações, não obstante estar registrada na literatura. É notável essa diminuição no quadro geográfico do país, apesar de ainda ser visto principalmente em cidades do interior e fazendas.
A tecnologia, a modernidade tem os seus prós, contudo, tem também os contras que contribuem para a extinção desse homem rural que há de ser mito brasileiro. Como Euclides da Cunha já previa no seu ensaio de crítica histórica, Os Sertões, “Estamos condenados à civilização. Ou progredimos, ou desaparecemos” (CUNHA, 2000: 76). No caso, para o contexto do homem rural, o progresso implicaria o desaparecimento dessa figura.
Considerar o papel da modernidade, do capitalismo, da industrialização, aqui, é inevitável. O quadro atual aponta para um desaparecimento da figura típica do homem rural, como o caipira, por exemplo, embora Antonio Candido (1987) tenha dito sobre a sobrevivência dos conteúdos essenciais dessa cultura. Mas até quando ele resistirá à aculturação? Portanto, a impressão que se tem é a de que o homem rural tão registrado na literatura pode vir mesmo a ser um mito.
É necessário dar o merecido reconhecimento a esse elemento brasileiro, é olhá-lo e, nas diversas leituras, ter a consciência da sua profundidade analítica, sua universalidade.
Reunindo-se essas amostras do homem rural, encontra-se um sujeito sabido, que possui aquele ar sossegado, paciente, vivido, outras vezes forte, lutador, que ora pode entoar os seus casos no embalo do fumo entre os dedos, com calma, respeito e mansidão, ora se rebelar e se transfigurar genuinamente.
É essa atmosfera que atravessa as linhas dos livros e vem impregnar a mente do leitor, que acaba por se familiarizar com o personagem, se envolver na história e escutar o que ele tanto tem a transmitir. Ler uma prosa ou um poema sobre o homem rural – e mais ainda na sua voz – é ser  absorvido por ele, como se ele estivesse muito próximo e familiar a contar o causo.
Que estes recortes na literatura aticem a curiosidade e que fiquem para registrar a influência e a legitimidade dessa figura notória, original e bem brasileira: o homem rural.

Autora

1 Graduanda em Letras pela Universidade Federal de Goiás. Contato: dheyness@yahoo.com.br